Cartas dos Leitores: No Regrets

Cartas dos Leitores: No Regrets

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Querido Diego, perdi meu primeiro e grande amor há 10 meses num infeliz incidente. Ler os teus textos é como uma válvula de escape, pois tenho sempre uma esperança de que tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem, eu sei. Nós não estávamos mais juntos há uns anos, mas éramos muito próximos, nunca guardamos mágoa um do outro. Cinco dias antes dele falecer, eu havia terminado um namoro sem futuro de cinco anos. Estava pronta pra começar de novo, mas o que eu não sabia era que nós não teríamos mais tempo. Hoje vivo com essa saudade, esse arrependimento. Se eu pudesse voltar no tempo, pediria pra Deus tirar o orgulho de minha vida, pois foi isso que atrapalhou de ficarmos juntos. Esperança talvez seja a palavra certa, muito obrigada pela esperança de toda terça e quinta, você é demais Diego. Com Carinho, sua fã, Kelly (Tucuruvi-SP)


Ei Kelly, eu repeti algumas vezes seu mantra junto com você: “Tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem. Tudo irá ficar bem, eu sei”. Nós sabemos que vamos perder as pessoas, seja pela morte, seja pelo acaso, distância, pelo silêncio, seja pelo simples fato de que um dia seremos nós a desaparecer. Um dia, todos vamos nos perder.

Todas as pessoas que temos hoje ao alcance do abraço, que vemos online, mas deixamos para dizer oi depois, que vemos na rua, mas preferimos não parar o carro para fugir do atraso, todas as pessoas para quem dizemos que vamos marcar algo e nunca marcamos, todas elas irão se esvair das nossas vidas com o passar dos dias, como o som do vento sobre as montanhas que parece infinito, mas em algum momento simplesmente cala.

Este é um exercício difícil, amar não a infinitude das pessoas, mas sua capacidade óbvia de desaparecer. Não devíamos amá-las com tristeza ou saudade antecipada, a gente devia curtir essa ida sem fim como quem chega, com aquela mesma curiosidade e interesse, com a compreensão de que todo mundo é meio que novo quando acorda no dia seguinte.

Eu sei que você sabe que não deve se culpar, ou se martirizar, você tinha que fazer escolhas e as fez. Você tinha que ter vivido tudo isso para aprender o que aprendeu. Talvez você precisasse dessa distância que teve para sentir o carinho que sente por ele hoje. Talvez, talvez e talvez. A vida ensina duramente que existe uma distância entre amar profundamente alguém e conviver com essa pessoa. Amor nem sempre é proximidade, amor também pode ser amplitude.

Há alguns anos, vi no escritório de uma amiga uma listinha de nomes colada entre os avisos. Parecia ser uma lista para uma festa e fiquei surpreso ao ver que meu nome também estava lá. Marie me explicou que se certificava de falar, mesmo que rapidinho, com todas aquelas pessoas, todo santo dia, porque a gente simplesmente esquece. A gente esquece de um monte de coisa que faz um bem danado pra gente, né?

Se na porta da geladeira tem lista de coisas importantes pra comprar, compromissos importantes pra cumprir, porque não pode ter também uma lista pra que a gente nunca se esqueça das pessoas que são vitais pra nossa alma? Eu também tenho uma listinha agora. Perguntei pra mim mesmo de quem mais sentirei falta quando eu for embora desse mundo bonito e o amor respondeu. O amor sempre dá respostas.  Não se sinta culpada por ter escutado o seu. Tudo irá ficar bem, nós dois sabemos. Obrigado por me escrever. Diego.

(Nomes, locais e fatos podem ter sido alterados ou subtraídos para preservar a privacidade das pessoas envolvidas). Envie a sua carta para cartas@palavracronica.com.br)

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