Bricolagem

Bricolagem

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Por muito tempo acreditei que dizer não tratava-se de negar pedidos abusivos dos outros, pôr-se em primeiro lugar nas escolhas. Ainda assim, foi muito difícil aprendê-lo.  Algo dentro da gente nos diz que se não dissermos sempre sim, as pessoas que nos cercam nos amarão menos. E a gente aprendeu isso lá atrás, com quem melhor fazia esse jogo: nós mesmos, quando crianças. Ameaçávamos o tempo todo desamar quem negasse nossos desejos. O feitiço contra o feiticeiro.

Lembrei dessa história porque semana passada encontrei meu vizinho na portaria do prédio, cheio de sacolas e subimos juntos de elevador conversando sobre amenidades, como eu tanto adoro. No sétimo andar, paramos para buscar alguém, Lúcia, que não entrou. Confundiu-se. Ia descer. Mas aproveitou a porta aberta para avisar Luis Claudio que iria na casa dele mais tarde pegar uma furadeira. Fiquei surpreso, ninguém gosta da Lúcia do 706. Ela se esforça bastante pra isso. Como tinham virado amigos?

Luis Claudio esperou o elevador voltar a subir pra me confessar – Odeio essa mulher. Energia ruim. Fala mal de todo mundo – tive que rir – Mas vocês pareciam melhores amigos. Até ferramentas você anda emprestando pra ela – indaguei. Luis Claudio me contou que um dia ela simplesmente perguntou no hall do prédio se ele tinha uma chave de fenda. Foi o suficiente para a casa dele virar o QG da bricolagem da dona Lúcia. Toda semana ela passava lá pra pegar uma ferramenta. Não pedia, dizia solenemente que tinha ido buscar a fita métrica ou a fita isolante.

Parece absurdo o nível de passividade do meu vizinho, mas, em maior ou menor escala, todos somos vítimas o tempo todo de gente assim. Gente que se aproveita de nossa distração, abalo emocional ou incapacidade momentânea de reagir para tirar proveito e vampirizar o coreto. Seu chefe com cara de sonso que pede pra você ficar pela terceira vez mais tarde essa semana por amor à empresa, aquela conhecida de um conhecido seu que se convidou pra festa de aniversário da sua filha, aquele namorado que já guarda as chaves do seu carro nos bolsos dele e fez você repetir por aí para as rodas de amigos que se sente mais segura com ele dirigindo. Puro abuso.

Seja sua energia, seu tempo, suas relações, seu dinheiro ou seu afeto, gente assim tentará roubar sua felicidade como formigas que carregam um gafanhoto morto em micronésimas partes, até digerir o todo. É aí que voltamos ao princípio da conversa: tem gente pra quem precisamos dizer não que simplesmente não nos pediram nada. É um duplo esforço. Sagazes que são, elas nem mesmo estão dispostas a escutar o não. Elas não reconhecem essa palavra.

Cabe a nós puxar a força, autoestima, energia e dignidade de onde quer que seja para nos mantermos inteiros e inabalados pelos abusos de quem não merece nem mesmo nossa angústia momentânea. Dizer não é de fato como montar suas próprias prateleiras em casa, no começo pode não ficar perfeito, uns furos no dedo, mas logo, logo você se torna expert em não se desmontar pelos outros. A lojinha de construção do apartamento do Luis Claudio fechou. Fiquei sabendo recentemente. Bom pra ele.

Diego Engenho Novo


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