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Você é má. Não há um jeito mais polido de dizer isso. Então apenas digo: você é má, garota. Você é cruel, interesseira, aproveitadora, sanguessuga, maledicente, mesmo com um sorriso largo no rosto.

Você é má. E não mudou um milímetro em todos esses anos. Chance não faltou. Nem pra melhor, nem pra pior. Você apenas se colocou mais espaçosa em um terreno reconhecido. Espreguiçando-se como erva daninha. E ninguém se move tão rápido e ao mesmo tempo lentamente, quanto você, admito.

Você é má. Em cada vírgula, em cada riso, em cada elogio que esconde uma crítica. Você é vil e pequena, mas letal, como um vírus. Sendo atacada ou protegida. Sendo amada ou esquecida. Recebendo afeto ou dor.

Admito que demorei pra abraçar a sua verdade. A gente sempre espera que as pessoas tenham contornos de bondade ou fragilidade em torno dos erros que comete. A gente sempre espera mais do que há.

Da primeira vez que você me feriu, eu acariciei seus cabelos. Da segunda vez que você me feriu, enxuguei seu rosto. Da terceira vez, eu segurei seus dedos. E você me feriu outra e outra e outra vez com crinas, caninos e unhas invisíveis. Porque é isso que você faz. Mas isso não é mais algo que faça parte de mim.

Se você é a noite, eu sou meio dia. Se você é oriente, estou ocidental. Se você é a solidão, eu sou todo o meu povo, cercado, abraçado, multidão. Você é só o que é, é tudo o que tem: ruindade.

Não haverá ataque, nem guerra. Para seu pavor, meu amor, nada nunca mudará entre nós. Eu apenas quero que você sempre saiba que eu sei. Eu quero sempre que você entenda que antes de você virar o olhar, eu te enxerguei. Lá no fundo. Eu quero que por trás do seu sorriso vago haja sempre, todo dia um pequeno constrangimento. Eu quero que no fundo do seu falar manso sempre ecoe – Eu sou má e ele sabe de tudo.

Foto: Porapak Apichodilok
Passei um tempo ali à sombra observando as crianças de quatro ou cinco anos, correndo com suas perninhas miúdas pro mar. Eles iam, iam e iam, como se fossem furar a primeira e depois a segunda onda. Como se as ondas duras fossem escorregadores e não muros. Atrás de mim, o coro de mães alertava dos perigos todos. Corriam uns metros gritando e tomando ar, catando as roupinhas em miniatura – Volta pra cá, menino! – Não temer é mesmo de um perigo danado.
 
Eu sorri e desejei profundamente um tantinho daquela inocência de volta. Um décimo daquela coragem desajuizada. Um milésimo daquela curiosidade desprecavida. Eu sorri e desejei ser criança, mas também ser onda. Ser coragem, mas também sabedoria. Ser pureza, mas ainda ter comigo minhas andanças. Desejei, mesmo sabendo que era impossível.
 
Desejei conhecer alguém de minha altura e entender que isso já era o bastante para sermos amigos. Aprender a dizer seu nome e desenvolver confiança. Desejei outra vez apenas dizer – Vamos ser amigos? – e estar tudo resolvido: seríamos mesmo amigos. Bastava isso.
 
Desejei não temer nada que fosse maior que eu. Desejei ter a loucura, a pureza, a quase demência autorizada e somente me apaixonar outra vez. Não gostar, não querer, não amar, mas se apaixonar descontrolada e deliciosamente. Lembra?
 
Desejei uma corrida despreocupada com o ridículo, um descabimento para as roupas que não faziam sentido, um alinhamento improvisado com os meus próprios joelhos depois de já ter corrido. Desejei um olhar impetuoso adiante, um frio na barriga por tão pouco, um achar graça de nada ou de tudo. Desejei um tempo incompreensível em que relógios e calendários eram um estrangeirismo.
 
E no exato instante em que desejei o impossível, eu me tornei aquilo que desejava. Um tempo depois, crianças todas recolhidas e em segurança longe da água, foi minha vez de correr. Corri o mais rápido que pude. O mais ridiculamente que soube. Percebi que ser gigante também tem lá suas virtudes.
 
No último instante, eu furei a onda. Não havia ninguém para me dizer que não era possível. Há ainda um lapso de doçura morando em cada um de nós. Basta ir.
 
Diego Engenho Novo

Foto: Spencer Selover

Estou aqui. Sentado na sala como se você fosse entrar por aquela porta. Com a estranha sensação de que talvez o trânsito te segure, a livraria no caminho te distraia, uma amiga de longa data te pare pra conversar, e você se demore, mas ao final, chegue finalmente em casa. Estou aqui, com as duas mãos imóveis sobre as pernas, tentando senti-las. Tentando sentir qualquer coisa, já que não entendo. De repente, tal qual as ondas mudam violentamente, tudo mudou.

Estou aqui, como quem espera acordar de um sonho ruim. Ou como quem acorda de um sonho bom e por dois segundos ainda acredita que a realidade também é boa. Até se dar conta. Estou aqui revisitando cada palavra que você usou cuidadosamente pra não me ferir ao dizer o quanto estava machucada. E nas pausas do dito, fico tentando ouvir o que não me foi dito. Nem hoje, nem nunca. Talvez nunca mais. Não em palavras.

Estou aqui me lembrando que, a partir dos meus olhos, tudo parecia no lugar. Nossas terças pareciam ágeis, nossas sextas eram indecisas como de costume, nossos domingos solares e depois melancólicos, mas eram sempre dias revestidos de um “nós” possível.

Estou aqui pensando agora que seu silêncio, que por tantas vezes me pareceu paz, talvez fosse grito, solidão, insegurança. Tudo menos a paz aparentemente visível. Achei que fazia parte de respeitá-la jamais confrontar sua pausa. Eu apenas me deitava à volta do seu calar como um cão envelhecido que aguarda um comando.

Estou aqui olhando para tudo o que construímos, precisa e preciosamente como monges que empilham pedras imensas, e agora parece tão frágil. Sinto que uma palavra fora do lugar colocaria tudo abaixo. Estou aqui e nem sei mais se posso chamar essas paredes pálidas, esses móveis doloridos, esses cheiros que parecem vultos, nem sei se posso chamar nada disso de casa.

Por ora, tudo parece mesmo suspenso, ondas únicas e frias que se repetem insistentemente, mar que se revolta. E uma dúvida paira sobre meus ombros murchos: será que você ainda entra por aquela porta? Estou aqui, naquela esperança miúda e reticente de que talvez o tempo vire outra vez e te traga de volta.

 

Diego Engenho Novo

Faltava ar. Pouco antes da uma da manhã cheguei ao pronto-socorro. O noticiário da madrugada resmungava ao fundo, acompanhado pelas tosses e pelos bipes do painel de senhas. Fui atendida rápido até. Minha cara de desespero imprimia mesmo emergência. Bronquite asmática. O pior passou. Não morri. Não hoje, não dessa vez. Ainda. A moça da recepção me chamou. “Débora?”, confirmei com a cabeça. “Preciso atualizar seu cadastro. Seu contato de emergência ainda é o Miguel?”, gelei até a ponta dos pés.

Não via Miguel há um ano. Desde que terminamos educadamente na praça perto de casa. Desde que eu fui chorando descontroladamente e cheia de medo até meu portão. Não pronunciava aquele nome desde que apaguei do celular, como se apagasse junto da vida também. Gelei de pensar se tivesse um treco e Miguel me aparece sem entender. Quer dizer que pra namorado eu não sirvo, mas pra te socorrer tudo bem? Morri de vergonha antecipada. Essa foi por pouco. Se Miguel teria notícias minhas seria de mim divando nas férias num destino exótico ou bonita saindo do salão no sábado. Não semi-morta, não vestida de azul bebê-internação, jamais com um soro enfiado no braço. Ex tinha que ter a consideração mínima de só cruzar com a gente nos nossos ápices. Mas são os nossos dias piores e mais desgrenhados que os atraem.

“Apaga isso daí, moça”, falei sem jeito, admitindo meu fracasso. Parei pra pensar quem botar no lugar. Em tempos tão sozinhos, quem é que a gente coloca no contato de emergência? Não tenho família, parente, primo distante por perto. Não tenho melhor amiga morando na mesma cidade. Não sei o nome dos meus vizinhos. Não quero incomodar a Marta do departamento financeiro do trabalho. Chama quem? Liga pra quem se eu tiver um troço e cair dura no meio da Avenida Paulista? Tenho convivido elegantemente com o fato de que provavelmente estarei sozinha por um bom tempo. Não tô amargurada. Só não quero mesmo. Pura preguiça. Cheguei aos quarenta tão satisfeita com minha própria companhia. É bonito de ver. Não quero interrupções, barulho, drama, caos alheio. Ser ferida pelos outros e se consertar dá um trabalho danado. Quero a paz de uma pia sem louça e o conforto de dormir esparramada. Mais nada. Dá pra ser?

Mas nessas horas, admito, soa lá dentro da gente aquela frase que você também já deve ter ouvido. Ela começa baixinha, aumenta um pouco, e em seguida grita: “Eu vou morrer sozinha!”. Nessas horas de fragilidade, a gente lembra que o outro também é suporte, mão que embrulha o medo pra outra hora, beijo que ameniza a dor, riso deliciosamente inapropriado no meio do desespero. O outro é quem diz: “Tô aqui por você”. Eu, euzinha, tô aqui mais do que ninguém por mim, mas sei que não é a mesma coisa. Reconheço minhas limitações.

Reconhecer que a gente, assim como qualquer outra pessoa, não pode se dar tudo é essencial pra não pirar. Por enquanto, me basto, mesmo que nem sempre eu seja o bastante. “Bota aí, Fábio”, respondi com firmeza. “Fábio de quê?, digitando. “de Melo”, com um risinho sacana. Dei o número da central de orações do panfleto que uma senhora tinha me entregado na rua. E saí rindo e imaginando o susto do padre ao ligarem avisando que a Débora teve um treco. Tem horas que o que salva a gente é a leveza. Essa sim, já me salvou milhões de vezes. Se você tiver lendo isso, desculpa padre. Apesar de que não seria de todo o mal acordar com você no pé da cama do hospital. Ô bença.

 

Diego Engenho Novo

Foto: Spencer Selover

Há alguns anos, caminhando por Londres, me deparei com um mural gigante do artista porto-riquenho, Alexis Diaz. Aquele grafite de um animal, meio elefante, meio polvo, me impressionou pela beleza, mas também porque tinha muitos significados internos pra mim. Aquele mural era o mais íntimo de mim, exposto em praça pública. Sabe quando se lê algo, ouve-se uma música, vê-se uma pintura que consegue transmitir perfeitamente algo que é muito seu? Algo que estaria além das palavras. Algo que está inclusive além das suas. Aquela besta meio polvo e meio elefante imaginada por Alexis, aquele ser caótico, era eu.

Sou eu: metade polvo, metade elefante. Sou polvo movimentando-me adiante, sonhando com o futuro. Sou movimento, dança e intuição. Sou eu, elefante, tomada por meu passado, vestida das forças de minhas memórias. Sou eu que, mesmo dotada do conhecimento necessário, ainda temo por vezes. Eu e meus tantos eus anteriores e ancestrais.

Sou eu, aprisionada entre quem fui e quem ainda serei. Sou eu, elefante e polvo sob a armadura de mulher adulta. Sou eu, polvo e elefante sob os olhos de menina anciã. Sou eu, mulher polvo e elefante, guiada pelo que sinto, mutante.

Sou eu, por vezes domada pela racionalidade dos polvos, e, em tantas outras, lá na frente rainha de minha intuição. Sou eu, como um elefante que pressente a maldade crua que o rodeia a centenas de quilômetros.  Sou eu, mulher polvo elefante, dona de minhas fases, fiel a mim e constantemente reorganizando meu intenso trânsito interior.

Sou eu, sempre distante do tempo presente. Aprisionada ao passado ou ao futuro, ambos impossíveis. Sou eu, elefante. Pesada de meus apegos, de minha memória, de meus arrependimentos que formam agora a crosta grossa que também protege. Sou eu, polvo, logo em seguida. Ansiosa, insegura, medrosa, mas também expert em fugir e se defender. Sou forjada no amor e na dor, no medo e na fé, no frio e na chama.

Sou eu, polvo, confundindo seus olhos com minhas tintas, antecipando-me aos seus movimentos com a leveza dos meus. Sou eu, a fúria que parte com tudo pra cima pisoteando suas meias palavras. Sou eu, mulher polvo elefante. Com meu olhar lancinante adiante que deseja, que guarda, que se entrega. Me entenda e me aprisione. Sou eu, mulher polvo elefante. Feita para não se entender. Sou eu, estranha e incompreendida, mas crente de que no fim, bastará que eu me compreenda.

 

Diego Engenho Novo

Foto: Matheus Bertelli

Ultimamente um assunto específico tem me deixado curioso. Tenho lido bastante sobre pessoas com uma síndrome rara chamada Memória Autobiográfica Altamente Superior. Em outras palavras, essas pessoas, vinte e poucas no mundo todo, jamais conseguem esquecer qualquer coisa. Tudo o que elas vivem, veem, ouvem, aprendem, sentem, é guardado pra sempre. Você deve imaginar como esse assunto é naturalmente instigante pra alguém que como eu tem memória de peixe. Minhas memórias me fogem como crianças de cinco anos: rápidas e misteriosamente, correndo em todas as direções.

Primeiro sinto uma leve inveja. Imagina poder guardar em detalhes o cheiro do cabelo da sua mãe? Imagina poder rever sempre que quiser a cor dos olhos da primeira namorada? O som da bola batendo na quadra da rua de trás nos chamando? Imagina poder lembrar de todas as receitas, datas, sabores preferidos dos seus amigos, de todas as respostas necessárias para ser um adulto bem-sucedido? Qualquer lembrança, memória sussurrado atrás das orelhas. Mágica.

Mas não deve ser fácil também carregar tanta coisa. Eu me desfaço de quase tudo e já me sinto pesado demais. Imagina lembrar em detalhes de tudo o que disse, mas não devia? De todas as vezes que se sentiu solitário e abandonado? Imagina jamais poder esquecer a primeira, a segunda, a terceira pessoa que amou? Jamais poder superá-las. Se bem que nisso, temos um pouco em comum. Eu jamais me esqueço de alguém que amei. Eu apenas as movo para um cômodo mais tranquilo de mim mesmo.

Mas ser um exímio esquecedor tem suas vantagens. As poucas lembranças que ficam são definitivamente as mais fascinantes. Hoje acordei e, ao olhar pelas janelas embaçadas pela chuva, me lembrei exatamente da primeira vez que te vi. Havia centenas de pessoas, não estava exatamente claro, mas, por um segundo, eu vi seus olhos olhando diretamente dentro de mim. Por um segundo, só havia você. Naquele instante, toda a minha dor, minha angústia, tudo em mim fez um silêncio muito respeitoso. Você sempre teve esse poder solene e doce sobre mim.

Eu me lembro de fio por fio dos seus cabelos escuros, textura por textura da sua pele clara, detalhe por detalhe da perfeição que te bordava. Eu me lembro de tudo. Você sorriu e, em seguida, riu de um jeito que eu jamais verei outra vez. Eu me lembro de cada canto daquele sorriso como um país distante do outro. Aquele instante mora em mim. Aquele olhar habita em mim e muitos dos olhares que você me ofereceu no tempo em que estivemos juntos. Eu sinto que nos meus últimos momentos nesse mundo, ainda vou te lembrar com a exatidão que carrego hoje. Algumas pessoas se lembram de tudo. Outras pessoas se lembram do todo. Eu me lembro de você.

 

Diego Engenho Novo

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Não há uma forma menos banal de começar essa conversa, perdão. Então, hoje eu espirrei na rua. E um moço jovem acompanhado da mulher soltou um solene “Saúde!” ao passar por mim. Primeiro achei inusitado. Traços de gentileza e afeto gratuito saltam aos olhos na dureza concreta de São Paulo. Mas o que me tocou mesmo foi pra onde aquela benção de um desconhecido me levou. De volta pra casa.

Lembrei de todas as vezes que a minha mãe parou tudo o que estava fazendo, me olhou e desejou saúde após meu espirrinho mirrado de moleque. Ela fazia isso e depois ficava mais uns segundos me olhando docemente, semi-sorrindo, me amando em silêncio. Esse moço da rua me levou de volta pra esse olhar que eu havia perdido. Me lembrou que durante muito tempo eu também desejei saúde para desconhecidos. Era hábito. Desejar algo bom pros outros era automático. Pensa na beleza disso nisso. Porque raios eu parei de dizer?

Lembrei também das manhãs tardias de domingo antes do almoço em que minha vó se sentava no sofá, me botava num banquinho na frente e ficava me ensinando a pedir a benção. Repetia, repetia e repetia fingindo seriedade didática. Mas logo caía na risada quando eu dizia “Deus te abençoe, vó” no lugar de pedir a benção dela. Demorei pra entender, mas não importava. Esse moço desconhecido me levou de volta praquele domingo e para o poder forte e mágico da prece e do amor ancestral.

A vida vai mudando nosso jeito de se portar, dando novos significados pras nossas tradições, a gente deixa de acreditar numa coisas e embarca noutras. Normal. Mas quem sabe vez ou outra a gente não possa sorrateiramente voltar pro lugar que enche a gente de calor, afeto e amor em conserva? Tudo continua lá, do jeitinho que a sua saudade deixou. A gente precisa fazer isso por nós, salvar nossas lembranças tirando-as de vez em quando da caixinha de guardados e botando elas pra acontecer. Pelo simples fato de fazer.

Passar o café do jeito que se passava na infância, escutar a música que lembra um dia banal de vinte anos atrás e a casa cheia, desejar o melhor para um desconhecido de graça, murmurar a reza que seus pais te ensinaram antes de dormir. Nosso afeto também enferruja, nossas memórias também perdem significância. Não deixa! Na busca de sermos melhores e mais sérios a gente vai se empobrecendo. Ao moço desconhecido, eu disse e repito: obrigado! Eu realmente me sinto bem melhor agora.

Diego Engenho Novo

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Resposta à carta da leitora Erika do Rio de Janeiro-RJ

Erika – Olá, Diego, como vai? Namoro há 5 anos, tenho 21. Passei minha adolescência e minhas experiências com a mesma pessoa me acompanhando a vários lugares, o amei muito e posso dizer que talvez seja o único que amei desenfreadamente. Porém, como todo namoro, há altos e baixos, brigas e acertos. E infelizmente, após 5 anos eu percebi que não tenho mais forças para lutar e continuar nessa relação. Estamos á deriva do nosso amor.

O problema é que ele é a pessoa certa, sabe? Aquele romântico que me enche de mensagens, aquele que deve apresentar aos pais, aquele que irá tirar sorrisos em horas que a alma esquece de sorrir. Entretanto, não está sendo mais a pessoa certa na minha vida nesse momento. Eu quero viajar, me encontrar, dançar, ter experiências loucas com minhas amigas para contar e até quebrar a cara se for necessário para o meu amadurecimento.  

Um dia, me disseram que a pessoa certa faz o momento virar certo, e com medo de perder uma pessoa extraordinária, fico em um relacionamento sem vida. Não o quero magoar e machucar, mas também não aguento mais essa situação de medo, de não valorizar a quem me valoriza, entende? Aguardo suas palavras e seus conselhos que aliviam. Um beijo e abraço carinhoso, Erika, Rio de Janeiro-RJ.


Diego Engenho Novo – Oi Erika, lendo a sua carta, me lembrei de uma adivinhação que ouvi uma vez de um amigo austríaco. “Um camelo entra com metade do corpo em uma tenda. A cabeça e as duas patas dianteiras estão dentro. O rabo e as duas patas traseiras estão fora dela. Onde está o camelo: dentro ou fora da tenda?”. Pensei por um tempo e respondi que o camelo não estava dentro, nem fora da tenda. Meu amigo sorriu e disse: “Bem, agora você sabe como fazer um camelo desaparecer”.

Eu sei que parece uma brincadeira inofensiva de criança, mas essa adivinhação me fez entender que boa parte do nosso sofrimento está em não saber. Há beleza em ficar e lutar pela calma que ele te dá, em valorizar o tempo pelo qual se dedicaram, em valorizar a pessoa incrível que ele é, em respirar fundo mais uma vez e tentar novamente e novamente. De igual forma, há beleza em se reinventar, em se arriscar, em se permitir ser uma mulher diferente ali na frente. Há beleza em se perdoar, se você se arrepender, no mesmo nível em que há beleza em ser grata se essa escolha torna-la maior do que você já é. Escolha.

Pense por um segundo: se a sua escolha, não fosse fazê-lo mais feliz, nem mais triste; se a sua escolha não fosse fazer sua família mais triste ou orgulhosa; se fosse somente você a afetada; você se enxergaria mais feliz seguindo a sua rotina com ele ou sem a vida que conhece? Eu, particularmente, também tive que fazer essa escolha tempos atrás. Tive que ser honesto comigo mesmo e com alguém que amava muito. Meu camelo estava divididinho. E eu escolhi tirá-lo da tenda, cair no mundo.

Sabe, Erika, eu ficava remoendo futuros inalcançáveis, possibilidades, remoía tanto, que não me sentia mais capaz de fazer-nos feliz, de estar presente naquela relação. Sei que perdi alguém único, mas sei também que me encontrei. Depois de tudo que vi por esse mundo lindo, sinto que hoje eu seria um companheiro melhor, mais presente. Hoje, o meu camelo estaria inteiro dentro da tenda, fazendo uma bagunça danada, desengonçado, mas feliz, completo. Recentemente, Jô Soares contava uma história sobre seu filho falecido. Quando criança, Jô levou o guri numa livraria e, ao ver o pequeno com uma pilha de livros nos braços, disse que aquilo era exagero. “Escolhe uns seis, filho”, conta Jô, “Então eu não quero nenhum. Escolher é perder, pai”. Escolher é perder, Erika, mas não escolher é desaparecer de algum modo. Empurra esse camelo!

Um abraço do tamanho do mundo!

Diego Engenho Novo

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Resposta à carta do leitor Cadu de Belo Horizonte-MG

Cadu -Olá Diego, tudo bem? Ler seus textos às terças e quintas se tornou um costume bom, que deixa o dia melhor. Tenho 32 anos e trabalho com uma jovem que também tem 32 anos. Ano passado, comecei a conversar com ela e fomos nos envolvendo, vendo que tínhamos afinidade em algumas coisas. Ela tinha namorado à época, mas em dado momento acabou cedendo às minhas investidas e acabamos nos beijando. 

Ela ficou chateada por ter traído o namorado, e em mim começou a nascer um sentimento que antes eu acreditava ser impensável, mas que aconteceu: me apaixonei. Pela traição, o namorado acabou terminando com ela, e eu e ela ficamos juntos por mais 5 meses. Eu imaginava que tinha chegado minha hora, que eu poderia construir algo com ela, que poderíamos namorar, mas infelizmente não foi o que aconteceu. Mês passado ela reatou o namoro e eu fiquei sozinho. Eu estava sozinho há 10 anos e não sei se ela realmente foi a pessoa que encontrei pra mim, ou eu, pela carência, quis que ela coubesse em minha vida e em meus sonhos. Não sei se luto por ela ou se desisto e parto pra outra. Um forte abraço, Cadu.


Diego Engenho Novo – Cadu, rapaz, que situação. Eu sei que é difícil aceitar, mas, assim como você não tem mais controle sobre os seus sentimentos por ela, tenho certeza que ela não tem sobre o que manda o coração. Se tivesse, quem sabe ela não escolheria mesmo seguir com você. Mas quando se trata de coração, a gente, como você bem deve saber, só abaixa a cabeça e obedece, né? “Sim, senhor!”

A inteligência diz pra seguir e o coração empaca, como uma mula teimosa dos Andes. Outras vezes, a mente da gente sabe que estar ao lado daquela pessoa é o melhor a se fazer e o coração manda a gente partir. Estaremos sempre atravessando essa ponte estreitinha que liga mente e coração e passa calmamente sobre o rio da vida. Viver é buscar completude.

Essa mulher, que você tanto ama, também saiu em busca da dela. Já está batida essa história de “O problema não é você. Sou eu”, mas a grande verdade é que a forma como nos posicionamos nos relacionamentos sempre parte mesmo das nossas próprias necessidades, da forma como lidamos com essa ponte que atravessa o rio entre a razão e o sentimento, dessa ponte que assusta, dá vertigem, medo de cair, mas que é necessária.

A grande verdade é que vocês não estão separados por algo que você tenha feito. Tire isso da cabeça. Pare de pensar no que poderia ser feito. Você deu o melhor de si para essa mulher incrível. E ela, provavelmente também te deu o melhor que podia naquele momento. Mas ela, nitidamente, ainda tem coisas pra resolver. E você, embora não veja agora, a ajudou muito a se reencontrar, a dar paz pra própria alma, a se sentir mais forte, mais amada. Parece ironia da vida, mas você a ajudou a enxergar que podia lutar pela própria felicidade.

Eu sei, você agora está pensando: “Ok! Ok! Ajudei, que beleza! Mas agora eu estou aqui sozinho. Isso não parece justo”. Na verdade, Cadu, se você olhar com calma vai ver que essa relação fantástica, esses meses ao lado dela, a ajudaram a escolher um lado da ponte, mas muito mais, ajudaram você a sair da margem do rio e se arriscar. Agora, você está aí, dolorido, com a cabeça cheia, com o coração confuso, mas aberto.

Tudo bem, amigo, isso também vai passar. Essa confusão é o balançar da ponte, tonteando as vistas, chacoalhando os sentimentos, bagunçando as ideias, para acomodá-las em lugar melhor, logo em seguida. Há alguém esperando por você do outro lado da ponte. Não sei se ela, não sei se alguém para quem você foi preparado pela passagem dela. De qualquer forma, vença seu medo e atravesse. O amor pode doer, mas ainda é uma das provas máximas de que nós estamos vivos e fazendo por onde merecer isto. Grande abraço, meu amigo. Obrigado por me escrever.

Diego Engenho Novo

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“E devagarinho a gente nota que a beleza da vida também vive na fidelidade dos ciclos. Porque quem vai e nos deixa mais vagos, quem parte e nos reparte em gomos, quem constrói pontes de saudade que ligam um lugar a si mesmo, quem esmaece da retina e da rotina, mas a gente nunca esquece, também um dia volta. E nós, que até então éramos só um tantinho menores pela falta, nos tornamos imensos pela presença, abençoados pelo reencontrar”

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