Amanhecer

Amanhecer

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Olhando os retratos que abotoavam as paredes da casa da minha avó, percebi que nas fotos mais antigas, não havia sorrisos expostos. Os rostos sérios, por vezes assustados, não faziam questão de transmitir nada além do que se sentia de fato naquele momento: certo incômodo diante da novidade, boa dose de desconfiança para com a geringonça que tentava roubá-los para um pedaço de papel.

Achei engraçado, depois pensei que não havia nada de estranho naquilo, estranho mesmo era abrir sorrisos incondicionais pra qualquer tipo de fotografia, para todas as horas do dia, como se fosse um balcão de padaria. Estranho era encostar nossos problemas de lado, nossas dores de canto em nome da selfie perfeita. Bizarro era vender uma felicidade constante que a gente nem tinha, mas parcelava em doze vezes, na fé de receber o produto depois. Estranho era mostrar dentes como quem sorria, com uma vontade danada de sair mordendo todo mundo.

Estar triste, ter problemas, ser assombrado por um dia ruim virou desvio grave de caráter. Roubaram a nossa melancolia, o nosso direito de chorar no box do banheiro por uma saudade antiga, de remoer os cartões que o ex já comprou escrito, mas assinou como quem diz que seu amor não cabe na tentativa das palavras. Levaram da gente nossa falta de assunto, nossa carranca matinal, nosso pé na jaca astrológico, nossas sextas-feiras treze azaradas e nos deram em troca sorrisos amarelos.

Sorrir conforta o todo, acalma as mães tão culpadas, cala os namorados, encerra as perguntas, muda o foco. Você não sorriu pra foto, está doente? Já pensou em ver um psiquiatra? Te indico o meu – diz sorrindo pra mim. Não, eu não eu acho que um mundo mais triste, choroso e reclamão é melhor. Deus me livre de gente baixo astral. Eu gosto de gente que ri, que celebra, que gesticula, desenhando as frases com os braços largos. Mas o gosto da felicidade quando ela é tão e somente verdade, não pode ser reproduzido em tons de amarelo-banana.

Cada perda, cada desvio da curva dos nossos sonhos, cada frustração deve ser bem organizada, negociada e finalizada dentro da gente. Quando a gente ignora, soterra com alegrias pré-moldadas, quando a gente para de dar colo pra nós mesmos, corremos o grande risco de olhar lá na frente pra todos aqueles sorrisos bonitos nas fotos e não nos reconhecermos. Se é pra sorrir que seja com o corpo inteiro, com a esquina dos olhos, com o coração diluído em todo o nosso ser. Se é pra ser amarelo, que seja do tom cintilante dos primeiros raios que venceram a noite para então se tornarem amanhecer.

Diego Engenho Novo


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