A Primeira Vez de Um Homem

A Primeira Vez de Um Homem

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Cruzou a cozinha e me abraçou pelas pernas, por trás. Sem me virar, esperei que ele entregasse a novidade que trouxe tão silenciosamente naquela manhã  – Pai, eu quero morrer! – murmurou. Como morrer? Nasceu um dia desses e já está cansado? Afaguei aqueles cabelos enrolados – O que aconteceu, Natanael? – foi a deixa para que meu pequeno abrisse as comportas. Dilúvio: chorava e engasgava com o próprio soluço. Se prosseguisse naquele ritmo, ele iria mesmo conseguir ter um treco e morrer, na flor de seus oito anos.

Se um amigo me vem choroso, eu o levo automaticamente para o bar. É lá nosso reduto sagrado de confissões masculinas. Mas nem mesmo um pai desregrado como eu seria capaz de arrastar o filho para o Botequim do Bigode. Fomos à sorveteria, o que me soou como a mais correta equivalência. Sem tirar os olhinhos de seu napolitano com cobertura de chocolate, Natan abriu o jogo – Amor dói -prendeu os lábios, contraiu as bochechas, apertou os cílios, mas não teve jeito: o choro veio à mesa.

Natan tinha estreado na vasta e promissora carreira masculina de pisar na bola – E se ela nunca mais falar comigo? Eu vou falar com quem, se ela nunca mais quiser brincar comigo? – gesticulou dramaticamente. Um pai se prepara a vida toda para conversar com o filho sobre camisinhas, drogas, álcool, pornografia e, nos tempos de hoje, estamos prontos inclusive para ouvir o veredito deles sobre a própria orientação sexual. Mas ninguém, livro nenhum avisou que eles viriam logo perguntar sobre amor, algo que a gente já desistiu de tentar entender faz um tempão.

Contei para Natan, que amor faz sim dodói, na alma. Mas que amor também era bom como dia sem aula, bolo de chocolate ou tobogã de sabão. A gente fica triste quando acaba, depois alegre quando ele acontece outra vez. E vamos tentando assim; como num jogo de videogame em que a gente cai no precipício e sempre tem a chance de jogar novamente e fazer melhor da próxima e da próxima vez.

Meu pequeno ensaiou um sorriso com uma faísca nos olhos, olhou para a minha porção de sorvete e danou a abrir a boca no mundo outra vez – Flocos, pai! – Que tem, Natan? – era o sorvete preferido dela.

Diego Engenho Novo


 

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